Entra qualquer um

17 01 2012

Houve um tempo – e, sinceramente, essa coisa de “no meu tempo é que era legal” não é a minha, mas isso é fato registrado – em que conseguir uma vaga num jornal grande era uma maratona intelectual. Você era testado, retestado, avaliado, reavaliado, criticado, ensinado e, o melhor disso: tomava esporros trágicos e ficava feliz. A partir do fim dos anos 90, com a popularização da internet e milhares de novas vagas abertas, o jornalismo virou a casa da mãe do BBB: passou a valer tudo.

Os mesmos barrados por não ter condições técnicas de virar um jornalista eram recebidos nas hostes dos portais como reis. Erros de português, textos medíocres, formatações impensáveis, pautas absurdas e Google tonificaram os músculos já murchos da nossa profissão.

O jornalismo, em decadência vertiginosa nos anos 2000, virou chacota nas redes sociais, sempre atrasado, sem furo, sem textos brilhantes. Estamos falando de um jornalismo 2.0 em que quem dá o fato antes deu um “furo”, sem necessariamente a informação ser precisa. “Ah, depois damos correção”.

Pois foi com essa turma que foram nutridos os grandes jornais, hoje dirigidos por gente mais nova, mais interessada em abrigar os seus e acochambrar amigos e simpatizantes – e principalmente não ser ameaçado.

O velho sonho de pisar uma redação está sendo pisoteado. Uma geração muito preparada, conectada, que olha para o futuro com mais agilidade, não olha prum salão com centenas de pessoas olhando para o Google com o tesão de antes.

Bill Gates e Steve Jobs abriram uma caixa de novas oportunidades de comunicação – e Mark Zuckerberg e Jack Dorsey tacaram um tijolo de novidade na cabeça da molecada. O papel se transformou num teletrim. Se eu posso produzir, me comunicar, criar meu próprio centro de comunicação e ainda consigo disseminar entre milhões de pessoas, por que vou perder meu tempo escrevendo prum papel com uma medida igual todo dia? Por que vou sair para uma pauta e fazer 450 fotos se só vão aproveitar uma?

O jornalista aproveitado no topo da decadência é o sujeito que agora filma reportagens, faz imagens de bastidores, faz “produção”. É o cara mais explorado, o que ganha pior e que se mantém naquele corredor sabe-se lá por quê.

Estamos próximos de uma hecatombe intelectual. Você vê os veteranos tentando se conectar com as pessoas nas redes sociais. E também vê os jovens tentando pular etapas, desejando virar veterano rapidamente, mesmo não sabendo a diferença entre um subtítulo e uma legenda.

Enquanto milhares de moleques almejam virar jornalistas, num mercado com vagas a salários aviltantes, no corredor de mídias sociais chovem soldos interessantes.

Em nenhum dos dois lados, porém, você encontra jornalistas brilhantes. Esses estão em muita falta.

O último fora de série que vi em ação com essa mão foi justamente nos anos 90. Já morreu.

Assim como morre, dia a dia, toda a minha claudicante esperança num futuro no qual o jornalismo tenha futuro.

PS: Uma curiosidade me toma: como será a cobertura de “O Globo” amanhã sobre o suposto caso de estupro no BBB 12? Se seguir a linha de Pedro Bial, que fraturou a realidade de forma exposta por dois dias seguidos, estaremos diante de um caso extremo de pique-esconde dos fatos. A diferença, senhores, é que agora tem muito mais gente a opinar por aí que os velhos senhores do papel. Pensem nisso antes de avaliar o tom e o tamanho dessa edição.

Bial, está todo mundo espiando você.


Ações

Informação

2 respostas

17 01 2012
Paulo Almeida

Boa, Mario. Texto preciso. Estou ficando seriamente preocupado com o que tenho visto por aí. Abs

17 01 2012
nilson batista

onde estão os leitores que ficam publicando numa rede que se diz social?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s




Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.